Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

As cores da vida

Pegou num lápis e, em frente a uma folha branca, ainda por preencher, ela começou a desenhar. Uns rabiscos inúteis, quase sem sentido. Quem olhasse para aquilo iria julgá-la louca, era um desenho abstracto. Riscos e mais riscos. Indefinições de cores. Era o azul misturado com o roxo, o verde a entrar no corpo do vermelho, o amarelo a sobrepor-se ao preto. Quem olhasse não via nada, não sentia nada. Decidiu chamar "Vida" àquele estranho desenho. "Vida", tal como a vida dela, desencontrada, desorganizada, indefinida. Sem formas concretas, sem a expressividade de uma obra onde são os pormenores que saltam à vista. Sem rostos perfeitamente contornados a preto. Sem árvores que parecem agitar-se e que nos fazem esvoaçar os cabelos. Era um mero desenho. Colorido de uma das partes. Contrastante, apenas nesse ponto, com aquilo que era a sua vida. Quando se olhava para a folha que agora se ia tornando mais preenchida, com pequenos pontos feitos a dourado imitando as estrelas, via-se tudo e nada ao mesmo tempo. Quando se olhava com olhos de ver, viam-se os pensamentos a vaguear, via-se a dor meticulosamente retratada a cinzento; via-se a morte (apenas um risco desordenado ao longo da folha) carregada a preto; via-se a saudade, em forma de círculo imperfeito; via-se a solidão num outro tom de cinza e via-se o desepero, num misto de preto, cinza e castanho. Cores fortes para algo que ela queria chamar a atenção. Do outro lado da linha tinha a esperança representada por riscos verdes, o amor em tons de vermelho e rosa, o infinito num azul quase imperceptível. Tinha cores fracas, pouco carregadas, como se aquele fosse um plano secundário. Como se fosse a sua intenção mostrar apenas a outra realidade. Era um roxo e um laranja que passavam despercebidos no meio de um arco-íris sem brilho. 

Pousou os lápis. Fechou a caixa onde os guardava. Olhou para a folha e inspirou. Como quem inspira o ar puro de uma floresta perdida no meio de uma ciadade. Voltou a olhar e achou que não era aquilo que queria. Num acto impulsivo rasgou a folha. De uma forma tão certa que ficou com as duas metades do desenho: a tristeza e a alegria. Levantou-se da cadeira e atirou a tristeza pela janela. Pendurou a alegria na parede e sorriu.

Ao som de : Amor (em 2ª mão) - João Pedro Pais
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1 comentário:
De Morgen a 1 de Dezembro de 2010 às 20:01
Há textos realmente muito bonitos, este é um deles
beijinho

Comenta lá meu amor :)